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O projeto

Histórico

 

O contato da pesquisadora Kilza Setti com as populações litorâneas iniciou-se em 1960. Desde então, vem acompanhando a atividade cultural e, particularmente, musical dessas populações, atividade esta que os ocupava paralelamente a práticas temporárias de pesca e agricultura de subsistência, bem como, no caso das mulheres, a seus afazeres domésticos.

Desde meados dos anos 60, fatos diversos interferiram no cotidiano caiçara: diferentes políticas para o uso da terra, descontrolado crescimento imobiliário, grilagem de terras, crescente turismo na região com fortes traços predatórios, fatos que, nas décadas de 40 e 50 saturaram os municípios de Santos, São Vicente, Guarujá e demais praias da Baixada Santista e acabaram atingindo progressivamente o litoral norte do estado de São Paulo e, a partir dos anos 80, também o litoral sul, até Cananéia. O movimento em direção ao litoral norte foi altamente estimulado pela construção da BR-101, a chamada Rio-Santos, que facilitou o acesso às belíssimas praias do litoral norte do estado, algumas das quais, até então, desconhecidas.

Frente à valorização das terras e ao crescente turismo, as populações caiçaras, especialmente aquelas que habitavam as zonas rurais, costeiras e sertões, ficaram desprotegidas. O chamado ‘progresso’, resultado da nova ocupação da região litorânea, lhes trazia mais perdas do que ganhos: perda de coesão grupal, de identidade, de território. Muitas dessas pessoas foram deslocadas da ‘areia’ para o ‘asfalto’, no sentido oposto ao mar, em bairros populares que se formaram após a desapropriação das áreas nobres da orla, onde antes residiam, e foram obrigadas a reduzir ou transformar sua atividade econômica principal, a pesca. Com isto, muitas tiveram de enfrentar uma situação de penúria cultural sempre agravada, pois as estradas, que diminuíam distâncias, ou os meios de comunicação, que facilitavam os contatos, não lhes eram acessíveis. E ainda não lhes são, neste início de século 21. Iniciaram-se, então, deslocamentos para a periferia das cidades em busca de melhores condições de vida.


Kilza Setti em pesquisa na Ilhabela, 1984

Nesse processo ‘civilizatório’ ou ‘modernizador’, perderam-se traços culturais tradicionais, sem que houvesse a aquisição compensatória de outros. No entanto, apesar da desorganização que tem atingido as comunidades litorâneas, observa-se que há nelas uma consciência grupal que favorece a preservação de alguns traços e manifestações culturais ancestrais.

 

 

A idéia do Projeto


Ditinho, Iaiá e Santinho – família de músicos. Perequê-Açu, Ubatuba, 1978
(foto: Kilza Setti)

A experiência da pesquisadora, enriquecida pelo convívio permanente com os povos caiçaras, sobretudo do litoral norte paulista, permitiu a verificação, nos últimos dez anos, de surtos de retomada da cultura tradicional por parte da população jovem caiçara. A percepção desse fenômeno alimentou a idéia de um projeto de valorização da cultura caiçara, que tivesse como ponto de partida os depoimentos colhidos pela pesquisadora. A idéia seria devolver à população esses registros que, de fato, lhes pertencem e sensibilizar os jovens caiçaras para a importância de seu patrimônio cultural imaterial, particularmente musical, estimulando-os a preservar suas tradições e lhes dar visibilidade por meio da divulgação de registros sonoros, de forma a contribuir para recompor a auto-estima desses povos e inspirar aos visitantes possibilidades de melhor conhecer o que o município oferece como seu produto cultural vernáculo.

Ao doar seu acervo, devidamente organizado, ao Museu Caiçara de Ubatuba, com cópias para outras instituições no Brasil e no exterior, e ao disponibilizá-lo na internet, Kilza Setti pretende contribuir para atenuar a carência de informação que decorre da pouca visibilidade da cultura caiçara e da escassez de conhecimentos especializados. Em que pese a importância da produção acadêmica sobre o tema, o povo caiçara e outros pesquisadores têm pouco acesso a registros primários, que documentam a cultura e o cotidiano caiçara.

Num momento em que o Ministério da Cultura torna explícita a sua política de respeito e valorização da diversidade cultural, pareceu-nos oportuno gerar condições de acesso a esse patrimônio imaterial dos povos caiçaras.

 

Objetivos

 


Casa caiçara, Praia Toque-Toque, São Sebastião, 1997 (foto: Kilza Setti)

O Projeto Acervo Memória Caiçara tem como objetivo principal valorizar o patrimônio imaterial caiçara, divulgar valores culturais ancestrais das regiões litorâneas, formar novos pesquisadores e estimular e capacitar os jovens caiçaras a desenvolverem ações voltadas ao registro, preservação e divulgação de sua cultura.

Considerando o fato de ser o litoral paulista muito procurado como estância balneária, com intermitentes fluxos populacionais de veranistas, o Projeto procura ser elemento dinâmico na relação visitante/visitado, de modo que nativos, turistas e novos moradores possam conviver respeitosamente com as diferenças culturais.

 

O acervo

Clique para ver o Mapa (Google: em uma nova janela)

O núcleo documental do Projeto é constituído por registros sonoros e imagens da coleção Kilza Setti, que, graças ao patrocínio do Programa Petrobras Cultural, 2006/07, incentivado pelo Ministério da Cultura (MinC), foi digitalizada, catalogada, indexada e está acessível ao público, tanto por intermédio das bases de dados online, quanto pela consulta local.

O acervo apresenta a diversidade de suportes documentais característica da contemporaneidade. Os registros sonoros - depoimentos, festas e peças musicais - foram digitalizados na íntegra e constituem o foco principal do projeto. Integram o acervo, ainda, registros de imagem fixa (fotos, mapa da região estudada) e em movimento (filmes em DVD), além de manuscritos, impressos e publicações

Quadro do acervo inicial - novembro de 2008

local do registro Quantidade período do registro
Ubatuba 136 1977 – 2007
Caraguatatuba 9 1977 – 1998
São Sebastião 5 1961 – 1988
Ilhabela 119 1984 – 1994
Bertioga 1 1972
Guarujá 2 1966 – 1967
Iguape 5 1982
Cananéia 4 1987

 

Neste site foram disponibilizados, na íntegra, registros sonoros, imagens e transcrições autorizados pelos participantes. Além disso, foram selecionados alguns trechos das entrevistas e peças musicais para serem recuperados como destaques.

Tanto a consulta presencial ao acervo quanto a consulta online da base de dados permitirão conhecer trechos musicais, fotos e depoimentos sobre a vida e a cultura caiçara, que envolvem temas relacionados à visão de mundo, consciência de preservação ambiental e cultural, consciência das perdas de espaço e território, acesso aos bens naturais, questões religiosas, repertórios e atividade musical, mudanças na vida caiçara e outros assuntos de interesse geral.

 

 

Localização do acervo

 

O acervo completo, bem como o equipamento adquirido para o Projeto, embora pertencentes ao Museu Caiçara de Ubatuba, têm como depositária, em sua fase inicial, a FUNDART – Fundação de Arte da Prefeitura Municipal de Ubatuba, que, nessa fase, responde pela preservação do acervo e pelo atendimento ao público.

FUNDART
Praça Anchieta, 38 – Centro
Ubatuba – São Paulo - Brasil
tel : (12) 3833-7000/7001


Sobradão do Porto, sede da FUNDART,
Ubatuba, centro, 1978. (foto: Kilza Setti)

email: fundart@fundart.com.br / projcaicara@gmail.com

O acervo físico de registros sonoros também poderá ser consultado em várias instituições no Brasil e no exterior, que receberam cópias dos registros digitais em MP3, dentre as quais se destacam:

Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
Biblioteca da Fundação Memorial do Estado de São Paulo
Biblioteca do Centro Cultural São Paulo
Biblioteca do Instituto de Artes da UNESP
Biblioteca do Instituto de Artes da UNESP
Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Centro de Documentação e Referência do Instituto Itaú Cultural
Library of Congress, Washington
Museu do Fandango
Núcleo de Apoio a Pesquisas sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras - NUPAUB da Universidade de São Paulo
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Laboratório de Etnomusicologia

 

 

 

 

 

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