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A cultura caiçara

 

 

Caiçara é o termo usado genericamente para designar populações que nasceram e vivem em regiões litorâneas, sobretudo no sudeste do Brasil. Este Projeto refere-se especificamente à cultura dos povos caiçaras das áreas rurais do litoral paulista.

A circunstância de parcial isolamento geográfico da população caiçara, que, no litoral norte paulista, manteve-se até a abertura da BR101, e, no litoral sul, prolongou-se por mais tempo, possibilitou a manutenção de procedimentos musicais e de linguagem como que resguardados em nichos: expressões que evocam o português antigo, procedimentos vocais e instrumentais que fazem lembrar traços do barroco europeu, o gosto pelos ornamentos nos toques da rabeca e violino caiçaras, minúcias do instrumental europeu que convivem com as marimbas de possível origem angolana, indispensáveis nas congadas do litoral paulista. Estas unidades básicas do saber caiçara são interligadas e estão ainda em uso, num processo que se realimenta pela oralidade, e merecem ser conhecidas e estudadas.

Falar em cultura pressupõe entendê-la não de modo estático, mas dinâmico, ou seja, abrigando mudanças e adaptações, sem, entretanto, perder seu foco identitário. A preservação da cultura de um povo só é possível se estiver também garantida a preservação das condições de vida e dos recursos de subsistência desse povo, encontrados em seu meio ambiente. É impossível referir-se ao patrimônio cultural desvinculado da noção de patrimônio ambiental, pois este, quando desintegrado, não permite a continuidade de padrões culturais de uma determinada população, isso quando não extingue totalmente as formas de vida. Entretanto, entenda-se que não será justo atribuir a progressiva degradação ambiental do litoral sudeste à população caiçara. Essa população, já rarefeita, não deve ser impedida de obter da natureza o mínimo para sua subsistência.

O respeito e a preservação da diversidade cultural requerem, sobretudo, a salvaguarda e a promoção do que se denomina patrimônio imaterial, força motriz da vitalidade cultural, definido pela Unesco como o conjunto de "práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”.(nota)

Os registros sonoros e visuais que formam o acervo do Projeto são o suporte físico de um patrimônio cultural imaterial dos povos caiçaras, um recorte temporal e espacial que engloba modos de vida, visões de mundo, valores, crenças, saberes, imaginário, linguajar, além de vestígios de tradições culturais e, mais especificamente, de expressões musicais.


Definição da UNESCO disponível em http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=10852&retorno=paginaIphan. Acesso em 23 jul. 2008.

 

 

Visão de mundo

 

Apesar do contato cada vez mais intenso com a urbanização e com os valores que lhe são estranhos, introduzidos pela cultura global, o caiçara tem seu próprio modo de ver e analisar o mundo; tem seus sistemas referenciais para sentir o espaço, o tempo, a natureza; estabelece sua ordem social e moral e seus padrões estéticos e tem seus próprios parâmetros para avaliação do mundo. Usa, por exemplo, para localizar endereços, referenciais da natureza, tais como rios, pedreiras e árvores (jaqueiras, mangueiras, taquarais, etc). Outros marcos expressivos dentro de seu universo são também tomados como referências espaciais, tais como ‘a bomba de gasolina’, ‘o matadouro’, ‘o Grupo velho’, etc. Para a idéia de tempo, utiliza imagens retiradas do cotidiano e do mundo natural, como, por exemplo, para expressar altas horas da madrugada, refere-se à ‘hora em que o galo cantava treis veis’.

A grandeza do mar, as distâncias, as montanhas que o separam do resto do mundo não lhes são desconhecidas. O caiçara sabe que existe um mundo além do seu, e parece estar informado de tudo o que se passa fora de seu âmbito de ação. Em Ubatuba, é comum se ouvir a expressão ‘lá fora’ para a área situada além do município, ou a expressão ‘serra-acima’ para as regiões do interior.

Uma constelação de símbolos e figuras povoa o mundo do caiçara, para o qual as imagens assumem grande importância. Além dos santos, ele recolhe, coleciona e expõe nas paredes da sala tudo o que lhe parece representativo: gravuras, fotos de família, flores de papel ou plástico, fitas, amuletos, folhinhas com imagens ou cromos, recortes de revistas, além naturalmente, de peças do mar, tais como cascos de tartaruga, estrelas, caramujos, etc. Está bastante preso ao símbolo; o respeito e a devoção que assume ante a Bandeira, nas casas de pouso do Divino, revelam a importância que dá à imagem, sobretudo quando representativa de categorias do sagrado. É, em geral, receptivo, cordial e cortês com os visitantes, demonstrando confiança e respeito, mesmo no trato com estranhos.


Catarina de Oliveira Prado em sua casa. Ubatuba, Centro, 2008 (foto: Kilza Setti)

 

 

A espoliação do caiçara

 

O caiçara do litoral paulista, particularmente das regiões disputadas como áreas nobres para a implantação de núcleos balneários e empreendimentos turísticos, foi, desde meados dos anos 60, deixado à margem desses empreendimentos e empurrado para a periferia das cidades, muitas vezes na condição de favelado, ou foi obrigado, para viver ou sobreviver, a ocupar áreas de preservação ambiental. Com a perda de território, o caiçara passa de dono da terra a intruso e verifica-se o gradual esfacelamento social e cultural dos núcleos caiçaras, empalidecendo relações de parentesco e de solidariedade vicinal. Os fluxos intermitentes de turistas e novos moradores também contribuem para a alteração da fisionomia cultural dos povos nativos.

O Projeto Acervo Memória Caiçara, ao organizar e tornar disponíveis os registros de depoimentos e manifestações musicais, procura estimular o respeito aos povos caiçaras, por meio da informação sobre seus modos de vida, seu imaginário e suas práticas musicais tradicionais, restituindo-lhes a auto-estima.

 

 

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